Capítulo 2 – GEKOKUJOU

Reino dos Goblins · Capítulo 2

Eu saciei minha fome ao caçar presas pequenas.

Foi graças a isso que consegui passar a noite.

O número de presas que eu devorei totalizou quatro. 2 delas são coelhos, uma é um sapo e a outra é um lagarto.

Se ainda fosse humano, teria certamente vomitado depois de uma refeição dessas. Não há dúvida alguma. Com essa comida e o descanso da noite passada, não resta mais nenhuma dúvida em mim.

Monstro.

Eu sou um monstro.

Ver esta minha aparência horrenda já se tornou algo normal. Pelo menos, eu não tremo mais quando me vejo.

Além disso, não está tão ruim assim. Percebi isso quando caçava pela primeira vez. Este corpo é consideravelmente mais poderoso do que o dos humanos.

Olhos que enxergam no escuro, garras capazes de dilacerar suas presas e presas fortes o suficiente para esmagar tudo. Tal poder não pode ser comparado à fraca força de um ser humano.

Por fim, não há mais nada a temer em relação à água suja. A resistência deste corpo é excepcional; a água impura não consegue causar nenhum dano nele.

A humanidade perdeu muitas coisas ao longo da evolução. E aquilo que a humanidade perdeu, este corpo ainda possui.

Se eu assim o desejar, posso viver o resto dos meus dias dessa maneira, sem ter o menor problema. Afinal, este corpo é na verdade mais conveniente do que o meu corpo humano.

É claro que gostaria de ser dispensado da obrigação de viver aqui como um monstro.

Acolhendo-me à sombra de uma árvore, comecei a refletir.

Agora, o que devo fazer?

Definitivamente, não quero me tornar um monstro.

Eu já tinha lido algo sobre uma situação parecida antes. Era uma história sobre um homem que se transformou em tigre. Nessa história, o homem enlouqueceu e passou a ser tigre não apenas no corpo, mas também na mente.

Eu não quero acabar assim.

É bem provável que eu esteja em um mundo diferente. E, com grande chance, já não sou mais humano. Nesse caso, preciso encontrar uma maneira de voltar.

Agora, o que devo fazer?

Enquanto brincava com o coelho que capturei pouco antes do amanhecer, refleti sobre as minhas próximas ações.

Pensando bem, aquele goblin não falou?

“Consiga alimentos”, ele disse.

Ele disse que sim, com certeza falou. Se for assim, então ele é capaz de falar.

Já que a compreensão mútua é possível, isso não implicaria também que existem outros goblins?

Talvez eu não saiba como voltar, mas se houver uma comunidade, deve haver uma maneira de eu obter informações.

Com isso, decidi o que fazer. Peguei o coelho e comecei a caminhar em direção àquela toca.

Mas assim que comecei, senti um arrepio percorrer minha espinha, fazendo-me parar na hora. Ao sentir aquela sensação, pulei imediatamente para dentro de um arbusto.

O medo se espalhou por todo o meu corpo, fazendo com que minhas pernas tremessem de forma incontrolável.

Curioso e alerta, afino os ouvidos. Lá, um som assustador e alto chegou aos meus ouvidos. Ao mesmo tempo, avistei uma aranha gigantesca, do tamanho de dois homens adultos, caminhando como um rei.

Meu coração estava calmo como gelo, mas meus membros tremiam sem sinais de parar.

A lógica questionava a identidade do monstro, mas meu instinto despertava algum tipo de medo primitivo em relação àquela fera.

Meu corpo não conseguia evitar de tremer diante do equilíbrio de poder entre predador e presa: aquele que come e aquele que é comido.

Seis olhos completamente vermelhos e desumanos se moviam ao redor enquanto buscava sua presa. Enquanto isso, seis membros, cada um com altura comparável à de um ser humano, o sustentavam.

“Kisha!”

No momento em que pensei que ele havia parado de se mover de repente, aquela aranha-monstro pulou bruscamente para dentro de um arbusto do outro lado daquele onde eu estava escondido.

“Guwoo!”

A criatura escondida no arbusto oposto ficou assustada e tomada pelo pânico. Aquela criatura tinha a cabeça horrenda de um porco e, ao mesmo tempo, possuía duas pernas para andar. Em outras palavras, um Orc.

Em pânico, o orc tentou fugir, mas a aranha-monstro o perseguiu. Ele tentou pular para fora dos arbustos, mas a aranha-monstro movia habilmente seus longos membros com uma velocidade muito grande, além da capacidade de visão humana, levando-o a um canto.

Encurralado, o orc foi pressionado por trás com duas das pernas da aranha. Em seguida, a aranha monstruosa aproximou suas mandíbulas assustadoras da cabeça do orc. Com um mordida violenta, ela atacou a cabeça dele, esmagando seu crânio e fazendo jorrar uma grande quantidade de líquido cefalorraquidiano, matéria cerebral e sangue em sua boca. Enquanto os pedaços daquela cabeça de porco horrenda flutuavam dentro daquela abertura carnívora, a aranha monstruosa devorava vorazmente cada pedacinho, aproveitando o momento com prazer.

Vendo a batalha entre os dois monstros no topo da cadeia alimentar se desenrolar bem diante dos meus olhos, meu próprio corpo monstruoso não pôde deixar de tremer.

No entanto, reuni todo o senso de raciocínio que ainda tinha em mim, reunindo toda a coragem possível para sair dali sem fazer barulho. Assim que alcancei alguma distância, comecei a correr o mais rápido que podia em direção à toca.

Eu, que deveria ter vivido entre humanos a vida inteira, acabara de tomar consciência do absurdo da natureza, da lei da selva.

△▼△

“Gigi!”

Sons incompreensíveis escaparam da minha boca enquanto eu gritava enquanto corria.

Mas, ao chegar à toca, não pude deixar de hesitar em entrar naquele buraco escuro e estreito. No entanto, não podia perder tempo demais, pois aquela aranha gigante poderia aparecer a qualquer momento. Sem mais tempo a perder, levantei a voz e gritei em direção à toca. Pouco tempo se passou, e o goblin de antes saiu.

“Alimente-me.”

A mesma face horrenda, acompanhada por um olhar que só podia ser descrito como ódio. Porém, havia uma coisa que me surpreendeu: a diferença em nossa altura.

Embora eu tivesse passado apenas uma noite do lado de fora, parecia que já havia crescido bastante.

Entreguei o coelho ao goblin, que o olhou sem dizer uma palavra. Depois, desapareceu na toca. Eu não sabia se deveria segui-lo ou não, mas, após algum tempo, ele voltou a sair. Com um olhar severo, rugiu para mim.

“Venha! Inimigo, está chegando!”

O goblin puxou meu braço com força e me levou para dentro da toca.

Gemi diante daquela força avassaladora. Aparentemente, ele nunca teve intenção alguma de se conter desde o início.

Em seguida, o goblin jogou-me em um cômodo e foi rapidamente pegar um porrete.

“Pegue.”

Enquanto olhava ao redor, percebi algo: embora o cômodo parecesse um pouco precário, na verdade era uma armaria.

De qualquer forma, ele quer que eu escolha uma arma, certo?

Sentindo medo do goblin, procurei pela armaria por alguma arma. Infelizmente, todas eram de má qualidade.

Não é que eu esperasse que esses monstros tivessem uma katana japonesa ou uma lança, mas mesmo assim esperava algo que pelo menos se assemelhasse a uma arma.

Com isso em mente, tentei encontrar algo mais adequado ao estilo fantástico, como algo que se assemelhasse a uma espada longa. Infelizmente, porém, tudo o que encontrei foi um bastão razoavelmente longo, um garfo pontiagudo e uma forquilha usada na agricultura.

Bem, acho que é melhor do que nada.

Foi assim que me convenci e peguei o bastão.

“Vamos.”

Disse o goblin enquanto saíamos rapidamente do quarto.

Ainda meio perdido em pensamentos, eu o segui.

△▼△

“Depressa.”

O sujeito me pressionou para ir mais rápido, enquanto eu precisava diminuir a velocidade daquela clava descontrolada. Eu pensei que ele só queria que eu pegasse uma arma, mas depois ele me levou até a superfície e até me fez correr. Por fim, após ser apressado de forma imprudente, chegamos ao nosso suposto destino: uma aldeia que parecia abandonada.

Mas eu não conseguia ter certeza se realmente era uma aldeia abandonada ou não, pois podia ver algumas sombras se contorcendo.

O que são aquelas coisas?

Acontece que o que se reunira ali era um grande número de goblins verdes. E no centro deles estava uma criatura semelhante a um chefe, com pele vermelha.

“Venha!”

O goblin que veio comigo segurou meu braço e me levou até onde estava aquele chefe vermelho. Enquanto ele me conduzia, não pude deixar de arregalar os olhos diante daquela criatura que não tinha absolutamente nenhum traço de majestade.

O goblin vermelho tinha estatura imponente, braços enormes, um brilho afiado nos olhos e, acima de tudo, um rosto horrendo. Ele estava equipado com uma armadura enferrujada e uma espada com um arranhão na lâmina. Ao vê-lo, não pude deixar de duvidar de que fôssemos da mesma raça.

“Rei, venha. Este aqui é um inseto insignificante.”

Ao ouvir aquelas palavras fragmentadas, cheguei a uma boa suposição sobre qual era a relação entre os dois.

O vermelho é o rei deles, e esses goblins são seus servos. Portanto, esse sujeito está me fazendo ter uma audiência com o rei como alguém ainda inferior a ele.

De repente, o rei olhou para mim.

“Você, por último. Seu desgraçado lento, dê-lhe uma punição.”

Em outras palavras, ele quer me punir só porque fui o último?

Não brinque comigo... quem você pensa que é?

Enquanto pensava nisso, o goblin ao lado daquele desgraçado vermelho já me imobilizara.

“Eu, com calma. Não vou matá-lo.”

Olhando para cima, meus olhos encontraram os do goblin vermelho.

Ao ver os olhos daquele monstro, pensei consigo mesmo que nunca esqueceria aquela visão.

Aqueles olhos transbordavam de superioridade e desprezo. Era aquele olhar condescendente que um pai, um professor ou um irmão irritante costuma ter para você.

Então senti algo batendo nas minhas costas.

“Gugigi!”

Sentindo aquela dor, não pude deixar de gritar.

Aquele goblin vermelho me atacava com um porrete, demonstrando prazer ao fazê-lo.

Parecia que ele gostava de me perseguir e me golpear várias vezes. Depois de algum tempo, parou, pisou na minha cabeça e disse isso.

“Eu sou o rei. Não... desobedeça.”

Vou matá-lo.

Não sei onde estou, mas com certeza vou matá-lo!

Neste mundo de pesadelo, pela primeira vez, consegui recuperar uma emoção nostálgica.

Era um mundo completamente diferente daquele desejo de comer que me guiava até há pouco tempo.

Não me importo nem um pouco se você disser que é algo humano.

Talvez você possa dizer que uma emoção como essa não deveria ter surgido em um mundo como este, regido pela lei da selva — um lugar onde os fortes sempre são fortes e os fracos sempre são fracos.

“Responda.”

Enquanto o ódio me enchia, a ponto de transbordar, eu respondi.

“Gai”

Eu não vou desafiar.

Enquanto o sangue azul escorria do meu corpo, jurei que mataria esse desgraçado.

△▼△

Enquanto proferia uma maldição enquanto o chefe goblin passava por cima de mim, ouvi uma voz, quase um grito, vindo de algum lugar distante.

“Em... emy!”

De repente, fui chutado para o lado, e o chefe vermelho elevou ainda mais a voz.

Enquanto era jogado no chão como lixo, fiquei olhando distraído para aquela cena.

Ao lado do goblin vermelho havia muitos outros goblins, e no final de seu campo de visão estavam três orcs.

Aqueles orcs aniquilaram dezenas de goblins à medida que se aproximavam do goblin vermelho.

Mas, apesar do número esmagador de goblins, os orcs, que eram duas vezes maiores que eles, facilmente os derrotaram com seus porretes.

Eles não tinham chance alguma.

Essa foi a minha impressão sincera. Com uma diferença tão grande no tamanho corporal, era impossível que eles vencessem um combate direto.

Com um único golpe, suas cabeças foram esmagadas e o líquido cefalorraquidiano jorrou para fora. Os goblins atacaram o orc um após o outro. Porém, suas espadas pesadas eram detidas pela gordura do orc, impedindo que causassem ferimentos fatais.

Durante todo esse tempo, o goblin vermelho apenas ficou observando os goblins sem sair para ajudá-los.

Aquele chefe vermelho apenas observava aqueles orcs enquanto eles eram cercados por uma muralha de goblins verdes. Enquanto assistia, ele até fez com que os goblins ao seu lado se juntassem à luta.

Mas isso era inútil. Algo assim jamais teria chance de deter os orcs que avançavam sem parar. E, usando seus corpos, os orcs conseguiram romper a muralha de goblins.

Bastou que um goblin caísse. Assim que um deles caía, toda a muralha também desmoronava. Mas os orcs também não estavam imunes a ferimentos. Na verdade, eles tinham feridas por todo o corpo, a ponto de ficarem furiosos. Podia-se ver seus olhos brilhando de raiva, sem restar qualquer sinal de raciocínio.

Eles deviam estar desesperados para sair daquele cerco.

Então, um daqueles orcs avançou em direção ao goblin vermelho e colidiu com ele.

“Gururu!”

“Guga!”

Embora fosse o embate de dois monstros, tudo terminou rapidamente.

Tudo o que restou foi o resultado esperado.

Aquele orc ignorou o corte profundo no ombro, jogou o goblin vermelho para longe, e os dois desapareceram na floresta.

Quanto ao goblin vermelho, acho que ele perdeu a consciência.

Ele nem sequer está se mexendo.

Enquanto pensava nisso, percebi uma espada pelo canto do olho. A espada que havia caído, aquela com a lâmina rachada.

Você caiu com um baque.

Naquele instante, ouvi meus batimentos cardíacos acelerarem...

Reuni toda a força que pude, ignorando os gemidos do monstro, enquanto me sentava.

“Gi, gigi–––“

Bem, bem. Que reviravolta bastante fortuita dos acontecimentos, não é?

Certo?

Apesar de me sentir tonto, pego aquela coisa que chamou minha atenção.

A espada longa com a lâmina rachada.

Então me aproximei daquele goblin vermelho imóvel.

Ele não deveria ter morrido só com isso.

“Gigigi.”

––––Morra, vadia.

Eu enfio a espada longa no pescoço do goblin vermelho com toda a minha força.

Quando a ponta da espada perfurou profundamente sua garganta, balancei a espada horizontalmente.

“Gigugyaguguaa!”

“Dji, ––Djai”

E, enquanto os últimos espasmos de morte do goblin vermelho ecoavam, ele exalou o último suspiro e então parou.

“Gu, Babbabba…”

Eu o matei.

“Gigigugugagu”

O que é isso?

Na verdade, estou muito mais abalado do que esperava.

“Gi, gigu!?”

Enquanto pensava nisso, senti algo explodir dentro de mim, fazendo-me cair de joelhos.

“Gigi, guha!?”

Ao sentir algo estranho vindo de dentro de mim, não pude deixar de segurar a cabeça. Algo estava acontecendo. Algo inexplicável, uma sensação horripilante que parecia me devorar por dentro.

Lá longe, ouvi uma espada cair com um baque seco.

“Ah… ahhh…”

Apenas um segundo havia se passado, mas parecia uma hora de dor. Quando a dor diminuiu, olhei ao redor.

Muito silencioso.

Ao olhar ao redor, para minha surpresa, percebi que todos os goblins estavam me encarando.

Será que... estou em apuros?

Infelizmente, não consigo reunir nem um pingo de força. Nem mesmo a força necessária para fugir.

Enquanto temia o pior, um goblin deu um passo à frente.

“Rei.”

O quê?

“Hã?”

O que esse goblin disse agora há pouco? Rei?

“Suas ordens.”

Com dúvidas, fiquei olhando para aquelas palavras estranhas e depois olhei para os meus braços.

Vermelhos, horripilantes e duros como aço.

Como descrever as emoções que senti naquele momento?

Não era a simples felicidade de me tornar forte. Tampouco era o nojo por estar manchado pela feiura. Na verdade, eu estava embriagado.

Pelo que eu me pergunto.

Mas, de qualquer forma, com certeza estou embriagado.