Capítulo 1031 – O Rei de Graycastle (I)
Liberte aquela bruxa! · Capítulo 1031
Enquanto isso...
Na Cidade do Brilho
Ao ouvir o sino do meio-dia tocar, Horford Quinn colocou sua caneta de lado e olhou na direção do sudoeste.
A notícia da coroação de Príncipe Roland se espalhou não apenas por todo Graycastle, mas também pelo Reino do Amanhecer. De acordo com os folhetos distribuídos pelas ruas, aquele seria exatamente o momento em que o jovem seria coroado.
Tudo estava acontecendo de forma tão rápida.
Horford achava difícil acreditar que o novo rei era vários anos mais jovem do que sua filha Andrea. Roland já havia assegurado seu trono e até mesmo estendido sua influência ao país vizinho.
Após a guerra contra a Família Moya, o nome de Roland Wimbledon era conhecido por todos os nobres da cidade do rei, no Reino do Amanhecer. No início, os rumores sobre esse príncipe extraordinário circulavam apenas entre algumas Câmaras de Comércio clandestinas, mas as notícias a seu respeito logo se espalharam por todo o seu país como fogo selvagem.
Há três anos, Príncipe Roland era apenas o lorde insignificante de uma cidade remota. Ninguém da Família Wimbledon imaginava que ele acabaria se tornando o soberano do reino.
Sua ascensão repentina estava envolta em mistério. Muito de seu comportamento era tão imprevisível e bizarro quanto sua subida ao trono sem precedentes. A cerimônia de coroação, por exemplo, ilustrou perfeitamente a excentricidade do caráter de Rei Roland. Ele provavelmente foi o único rei da história a escolher realizar a cerimônia nos Meses dos Demônios.
Reis com personalidades tão únicas geralmente surgiam quando o país se encontrava em um estado de caos ou passava por conflitos civis. Com a iminente Batalha da Vontade Divina, Horford sentia que o mundo em breve sofreria mudanças drásticas.
"Sua Majestade", disse o guarda, interrompendo seus pensamentos. "Uma carta de Senhor Hill Fawkes."
"Sério?" Seus olhos voltaram para a escrivaninha. "Abra e leia para mim."
"Como desejar, Sua Majestade."
A expressão “Sua Majestade” era realmente hipnótica. Nos últimos 20 anos, ele havia sido o braço direito do Rei e pronunciara aquelas palavras inúmeras vezes. Horford achava que seria imune à agradável embriaguez causada pelo súbito aumento de poder e prestígio, mas, na verdade, seu coração se enchia de orgulho toda vez que alguém o tratava daquela maneira.
De qualquer forma, ele deveria parabenizar o novo Rei de Graycastle.
Horford sabia muito bem que seu acesso ao trono se devia ao apoio de Roland. Não eram as espadas de Senhor Quinn que aqueles nobres poderosos temiam, mas sim o trovão ensurdecedor capaz de destruir toda a cidade, sob o comando de Roland. Por isso, sua autoridade ainda não havia sido contestada. Horford sabia que a melhor maneira de manter seu poder era formar uma aliança com Graycastle, especialmente neste momento em que tudo estava prestes a mudar.
"A carta diz que Graycastle enviou uma expedição de mineração para a fronteira do nosso país. Eles esperam pela sua ajuda e apoio."
"Informe o Conde Luoxi sobre este assunto e diga a ele para saudar a expedição em nome da cavalaria", instruiu Horford imediatamente. "Além disso, avise todos os senhores locais daquela região e certifique-se de que a expedição receba tudo o que precisa."
"Como ordenar, Vossa Majestade!"
...
Ilha do Arquiduque, ao largo da costa do Reino de Wolfheart.
Embora a cidade estivesse longe do alcance de influência dos Meses dos Demônios, a brisa marinha úmida e fria fazia com que toda a localidade parecesse desolada e sombria. Poucas pessoas podiam ser vistas nas ruas lamacentas, exceto na área do cais.
Apesar do tempo, um bar ao ar livre ao lado de um armazém chamou muita atenção. O bar oferecia vinhos baratos para marinheiros e viajantes que queriam se aquecer um pouco. A maioria dos clientes simplesmente chegava e ia embora, mas agora havia cerca de 100 pessoas reunidas ao redor do bar.
Uma mulher vestida com roupas feitas de tecidos grossos também se aproximou da multidão.
"Farrina?", sussurrou alguém. "No que você está pensando? Devemos ir embora."
"Demônios", respondeu ela.
"O quê?" A expressão da outra pessoa mudou.
"Eu ouvi alguém falando sobre os demônios", disse a mulher que chamava Farrina. "Só um momento, Joe."
O homem hesitou. Por fim, ele baixou a cabeça e disse em voz baixa: "Sim... Sua Santidade."
"Isso não é uma ordem." Farrina acenou com a mão e se aproximou um pouco mais, na esperança de ouvir mais da conversa.
"Eu nunca vi monstros tão aterradores. Eles tinham asas maiores que um homem e presas maiores que os nossos braços. As muralhas da cidade não significam nada para eles!", gabou-se um comerciante. Agora no centro das atenções das pessoas ao redor, ele falou ainda mais alto: "Mas isso não é o pior. Existe outro tipo de demônio que se parece com um homem, mas é muito mais forte. As suas lanças são mais rápidas e mortíferas do que uma balista. A armadura é inútil contra eles! Não me importo se rirem de mim, mas quase mijei nas calças quando os vi."
As pessoas na multidão arfaram.
"É verdade? Eles são invulneráveis?"
"Nós não conseguiríamos sequer tocá-los, mesmo que estivessem voando no céu."
Ainda assim, algumas pessoas pareciam incrédulas.
"Esqueça isso! Que demônios... Você sequer sabe a diferença entre bestas demoníacas e demônios?"
"Vá até o Planalto Hermes e dê uma olhada! Lá existem todo tipo de monstro. Parece que você se assusta com facilidade. Não fique paralisado de medo."
"O que você sabe a respeito disso?!", gritou o comerciante, indignado. "Foi assim que Príncipe Roland Wimbledon os descreveu! Ele vive na Região Ocidental há muitos anos e não sabe fazer a diferença entre bestas demoníacas e demônios? Bobagem! As bestas demoníacas são apenas hordas estúpidas e errantes, mas os demônios possuem exércitos bem treinados. Você já viu animais coordenando ataques a uma cidade, um após o outro?"
"Se o que você disse for verdade, como é que Graycastle os expulsou?"
"Vocês não conseguiriam entender. A situação era precária, mas, de repente, um trovão retumbou vindo das muralhas da cidade e rasgou o céu." O mercador se gabou, cuspindo para o público. "Os demônios foram instantaneamente reduzidos a pedaços. Seu sangue espirrou por todo o chão. Um deles caiu bem na frente do hotel onde eu estava hospedado. Havia um buraco do tamanho de uma tigela em seu peito. Só Deus sabe como eles fizeram isso!"
"Até mesmo uma balista não conseguiria fazer algo assim. Pelo que você disse, o príncipe não é um Deus?"
"Haha. Se ele não for, como você acha que ele destruiu a igreja?"
Ao ouvir essas palavras, as mãos de Farrina se fecharam em punhos.
"..." Joe colocou a mão no ombro de Farrina e balançou a cabeça em silêncio.
"Eu sei." Farrina respirou fundo e soltou os punhos. "O que você acha?"
"A Lua Sangrenta ainda não apareceu. Os demônios não deveriam ter chegado às Terras Bárbaras. Mas a história dele se encaixa nas descrições dos demônios contidas no Livro Sagrado. Não parece ser uma mentira. Eu... realmente não sei." Joe fez uma pausa e disse: "Mas não temos nada..."
"Isso não tem nada a ver com eles.", interrompeu Farrina. "Você está certo, Joe. Primeiro, precisamos cuidar de nós mesmos."
Após a morte do Papa interino, Tucker Thor, Farrina seguiu suas ordens, retirando-se da Nova Cidade Sagrada juntamente com o resto do Exército do Julgamento. Ela planejava restabelecer a igreja na Ilha do Arquiduque, no Reino de Wolfheart, onde antes existia a organização de bruxas, a Associação Bloodfang. Para impedir o ressurgimento das bruxas, eles escolheram aquela terra fértil como sua nova fortaleza.
Para sua grande surpresa, porém, a notícia da queda de Hermes se espalhou por toda a região. Ao saber do fracasso de Hermes, o bispo da Ilha do Arquiduque virou-se contra a igreja e conspirou com os nobres. Agora, ele era conhecido como Conde da Ilha do Arquiduque. Para assegurar seu novo título, ele chegou a enforcar os mensageiros da igreja do lado de fora dos portões da cidade.
A traição inesperada foi um golpe duro para o Exército do Julgamento. Por causa disso, muitos deles deixaram o grupo. Farrina vinha levando uma vida clandestina na Ilha do Arquiduque há meio ano, sem ter conseguido nada até então. Se ela não conseguisse restabelecer a igreja e atrair novos crentes, provavelmente seria o fim da instituição.
Sem dúvida, a única maneira de salvar a igreja dessa situação precária era executar o traidor como forma de dissuasão.
O único problema era que o inimigo também possuía um grupo de Guerreiros da Punição de Deus.
Seria uma batalha acirrada.
"Vamos sair daqui." Farrina puxou o capuz para cima e lançou um último olhar para o bar.
O mercador continuou a falar sem parar. "Há muitas coisas interessantes lá! Por exemplo, navios de ferro negro do tamanho de colinas, e um edifício gigantesco mais alto ainda que a Torre de Babel. Quando vocês os virem, nunca vão esquecer!"
"Vamos, conte-nos tudo. Eu compro outra bebida para você!"
"Foram todos construídos por aquele Príncipe Roland?"
"Claro! Mas agora não se pode mais chamá-lo de Sua Alteza. Quando eu saí de Neverwinter, ele já havia decidido subir ao trono! A data... deixe-me ver, certo... é hoje!"
"Uau. Então agora ele é o Rei de Graycastle?"
"Haha, está certo!" O comerciante levantou sua taça de vinho e disse: "Já que é o dia da coroação dele, vamos brindar. Ao Rei de Graycastle!"
"Ao Rei de Graycastle!" A multidão levantou suas taças.
"O Rei de... Graycastle?" zombou Farrina. "Seja o rei que quiser. A Batalha da Vontade Divina acabará reduzindo o mundo inteiro a cinzas. Mais cedo ou mais tarde nos encontraremos novamente no Inferno. O único problema é quem chegará lá primeiro. Se eu não conseguir derrotar o traidor, chegarei lá antes de você; se eu vencer, ficarei esperando por notícias da sua queda bem aqui."
"Rei Roland Wimbledon", pensou Farrina com fúria.